Eu ainda espero você voltar para casa.
Busco abrigo em mim mesma, ocupo os meus dias,
distraio-me do vazio olhando para o que ainda me completa,
tudo para clarear a mente
e esquecer a falta que sinto de ver você chegar.
Orquestro o silêncio ao meu redor para ignorar o arder do alfinete fincado na minha artéria coronária.
Dessa arritmia faço um compasso,
transformando o rumor do portão de ferro na nota de abertura de uma trilha sonora.
Proporcional ao tempo que suporto essa milícia interna, é o meu desejo de você.
Tu cruzas o umbral e a soleira da porta.
Mas a espontaneidade, o viço, o frescor de quem és,
ficam exilados lá fora, na calçada rústica.
Entras apenas com o fardo, com a penúria dos dias,
viciado na fuga crônica de ti mesmo.
E na tua presença puramente física, geométrica,
eu me torno uma argonauta de destroços,
sondando os resquícios do seu afeto.
Antes que chegue até a mim, seu olhar já é logo capturado e hipnotizado
nesse retângulo feito de metal, vidro e notícias de última mão,
que tua mão destra retém como um amuleto.
Tal qual um portal portátil
que te arrebata para geografias distantes
de onde viajas sem promessa de retorno.
Aliado à queima lenta do teu cigarro,
pretendem que minha espera já não fosse árdua o suficiente,
pedem de mim mais cinco minutos.
Esse teu rito é capaz de dilatar o relógio,
os minutos perdem a medida,
transmutam-se em horas.
Minha fome de afeto não encontra saciedade,
pois ele me é servido de forma parcimoniosa, estritamente racionado.
Me torno um pescador faminto:
O pescador sabe que a insistência não curva o destino,
que o grito na margem assusta o que resta na profundeza.
Não há manobra, não há movimento útil;
resta-me apenas a contingência cega,
a humilhação da sorte.
Teu toque tem a textura fria de um boleto vencido, uma dívida que contrais e pagas com pressa.
Quando teus dedos, tardios, percorrem a minha pele,
parece que cobram pedágio de ti mesmo.
No curto percurso entre a minha nuca e o meio das costas,
é como se tivesses de despender, em tributo,
metade do lucro que o teu labor exaustivo angariou.
No avesso do meu desejo, eu queria subverter a ordem:
queria eu ser o teu portal.
Ser a fenda na parede por onde esquecerias o mundo, tua deserção, tua trégua, tua pacificação.
Mas sou o território onde não queres te demorar, enquanto o vidro da tua mão é o lugar onde tens pressa de habitar.
Não desfrutas em mim desde que não trago o alívio das finanças.
Virei o peso morto na engrenagem da rotina.
Minha teimosia imatura se rebela contra o fim da fruição do amor.
Uma vez que o luto traz o nada, e a dor ao menos é algo.
O nada seria o extirpar violento, o arrancar de mim
da própria identidade que em ti se edificou.
Sei que este meu esperar é um anseio desamparado,
puro romantismo de película;
bem como é uma ambição obstinada:
uma rosa frágil, insistente,
que tenta florir num solo desidratado
e, ainda assim, se nega a morrer.
Por isso, condenada a este movimento em anel,
eu recolho os meus pedaços e permaneço.
Porque eu ainda espero você voltar para casa.
sexta-feira, 12 de junho de 2026
Eu ainda espero você voltar para casa
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